Uma Breve História da Doença de Chagas

Este texto foi adaptado do artigo intitulado “A doença de Chagas como problema do Continente Americano”, de autoria do Dr. João Carlos Pinto Dias, com vistas à divulgação científica no âmbito do site do Projeto IntegraChagas-Brasil.

            A Tripanossomíase Americana, posteriormente denominada de doença de Chagas, em homenagem ao seu descobridor – o pesquisador brasileiro Carlos Chagas, é uma doença parasitária, resultante da infecção pelo protozoário Trypanosoma cruzi, tendo como vetor várias espécies do gênero Triatoma – conhecidos local e regionalmente como barbeiros, chupões ou chupanças.

            A forma mais importante de transmissão da doença de Chagas ainda é a vetorial (seja pela contaminação das fezes do barbeiro infectado na lesão resultante da picada, seja pela mucosa ocular ou, ainda, pela contaminação oral, durante o consumo de frutas não higienizadas, especialmente o açaí.

             Para além da transmissão vetorial, as transmissões transfusionais (transfusão de sangue contaminado) e congênita (da mãe para o feto) têm grande importância epidemiológica. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam a existência de 16 a 18 milhões de infectados pelo Trypanosoma cruzi, sendo que a grande maioria dos infectados se encontram na América Latina. Há de se ressaltar que, com a imigração, a doença de Chagas se espalhou para vários outros países, especialmente a Espanha e os Estados Unidos. Nestes últimos países, a maior preocupação advém da transmissão transfusional, congênita ou por transplantes de órgão.

            Do ponto de vista sócio-político, a doença de Chagas constitui um grande problema da América Latina. Ela se enquadra no rol das doenças negligenciadas, com incidência alta em populações socialmente excluídas, em bolsões de pobreza, que vivem em habitações rurais propícias aos criadouros de triatomíneos, com sistemas de saúde ineficientes e espaços geograficamente abertos, principalmente por desmatamentos intensivos. Estima-se que entre 12 a 14 milhões de indivíduos estejam infectados pelo T. cruzi nos países americanos de colonização ibérica, ocorrendo apenas casos esporádicos de transmissão natural nos Estados Unidos. Dentre os infectados, uma proporção de 10 a 30% já têm ou terão uma cardiopatia crônica devida à tripanossomíase americana, sendo que destes, cerca de 10 % apresentarão uma forma grave da doença, levando a uma diminuição da capacidade produtiva ou, ainda, de forma mais trágica – a morte.

            Neste contexto, duas situações fundamentais se entrecruzam: de um lado, a evolução científica dos “chagólogos” latino-americanos e, de outro, o envolvimento da Organização Panamericana de Saúde (OPAS), assumindo um papel catalizador e motivacional junto aos governos regionais e à comunidade científica. De modo geral, ambas as situações se deram a partir da segunda metade da década de 1950, mercê de esforços muito particulares de pesquisadores e sanitaristas envolvidos com a doença. Nos anos 1980 estavam amadurecidos alguns programas nacionais de controle vetorial e foi demarcado, com o advento da síndrome da imunodeficiência humana (aids), o definitivo controle dos bancos de sangue. Na década seguinte houve coalizão e maior cooperação entre vários países da região, configurando-se as Iniciativas Internacionais de luta contra a doença, um prenúncio de novos tempos e de avanços substanciais sobre a transmissão da doença na América Latina.

            O Projeto IntegraChagas-Brasil, coordenado pelos pesquisadores Andrea Silvestre (FIOCRUZ) e Alberto Novaes Junior (UFC), vem ao encontro deste movimento de conscientização e combate à doença de Chagas, tendo como missão a ampliação do acesso, a detecção e o tratamento da doença de Chagas no âmbito da atenção primária integrada à vigilância em saúde no Brasil.

Fontes: Porta da Doença de Chagas – http://chagas.fiocruz.br/sessao/historia/